segunda-feira, 29 de agosto de 2016

FIM DA PASSARELA- CRÔNICA 2

Era difícil de engolir. Na passarela, o físico perfeito era mais que necessário. Já tentei de tudo: dietas, remédios, drogas e muito mais. O sonho de uma vida brilhante, agora se tornará um tanto distante, assim como tudo em minha vida. O passado problemático, as brigas com a família, o sentimento de abandono e a crescente falta de confiança em pessoas as meu redor simplesmente desaparecem na primeira tragada, no primeiro incômodo da agulha perfurando a pele ou algo assim.
       
Já fui internada em vários centros para viciados e mentalmente instáveis, mas não durei mais que apenas alguns meses. Isso pareceu incomodar alguns amigos, então fui "convidada a me retirar". Não me importei, já não me importo mais com isso. Nem com o meu sonho destruído. Nem com a mídia. Nem com mais nada.

 Vivia fugindo. O corpo que um dia fora cobiçado e cortejado, tornou-se magro, frágil, dolorido, calejado e desnutrido. Não tinha nada. Tudo o que juntei, gastei com o meu vício irrefreável. Porém, duas coisas ainda me confortavam: A dor que parecia substituir tudo ao meu redor, seguida por uma sensação de liberdade reconfortadora. E, por fim, eu não poderia nunca atingir o fundo do poço, pois já me encontrava no mesmo.

domingo, 21 de agosto de 2016


MISS

Miss Bennett não deixava que a chamassem de senhora, nem mesmo senhorita. Era miss, como as mulheres finas na Inglaterra (se morava na Europa era elegante, não havia discussão). Bastava chamarem-na de senhora que se dava por ofendida e fechava a cara. Era sua primeira regra.

Sua outra regra era que sua primeira prioridade era, e sempre seria, sua lojinha. O pontinho rosa era a única fonte de cor em meio aos prédios de tijolinho, a vitrine sempre mostrando manequins escuros de feições delicadas pintadas por ela mesma, cada um deles vestidos de rosa e um chapéu extravagante. Era sua parte preferida, os chapéus. Cada um que fazia era único, feitos a partir de penas coloridas, pedras, fitas, flores, retalhos, todo tipo de material que pudesse ser utilizado. 

Miss Bennett era a única que usava os chapéus, claro. Ninguém mais ousava usar algo tão aberrante em público, nem mesmo ela, no início. No início, ela era como todas as outras: os cabelos alisados e compridos, as roupas padronizadas, camisetas justas destacando a cintura e os seios, calças jeans exibindo suas curvas. Mas depois da noite na Feira da Cidade, decidiu que não era o tipo de garota que queria chamar atenção de garotos em bares. Decidiu que ia ser o tipo de mulher que sempre quis ser. Decidiu que seu objetivo, a partir daquele momento, ia ser se impressionar.

Assim, deixou os cachos crescerem e começou a fazer suas próprias roupas. Frequentemente perguntavam do que estava fantasiada, mas era exatamente o contrário. Fantasias tentam esconder, mostrar algo que não é. Fantasia era o que ela usava antes da Feira. Essa era ela, verdadeiramente ela.

Chamavam Miss Bennet de excêntrica, mas ela não acreditava nisso. Acreditava que era como todas as outras mulheres. A diferença é que ela já havia tirado sua fantasia.