FIM DA PASSARELA- CRÔNICA 2
Era difícil de engolir. Na passarela, o físico perfeito era mais que necessário. Já tentei de tudo: dietas, remédios, drogas e muito mais. O sonho de uma vida brilhante, agora se tornará um tanto distante, assim como tudo em minha vida. O passado problemático, as brigas com a família, o sentimento de abandono e a crescente falta de confiança em pessoas as meu redor simplesmente desaparecem na primeira tragada, no primeiro incômodo da agulha perfurando a pele ou algo assim.
Já fui internada em
vários centros para viciados e mentalmente instáveis, mas não durei mais que
apenas alguns meses. Isso pareceu incomodar alguns amigos, então fui
"convidada a me retirar". Não me importei, já não me importo mais com
isso. Nem com o meu sonho destruído. Nem com a mídia. Nem com mais nada.
Vivia fugindo. O corpo que um dia fora
cobiçado e cortejado, tornou-se magro, frágil, dolorido, calejado e desnutrido.
Não tinha nada. Tudo o que juntei, gastei com o meu vício irrefreável. Porém,
duas coisas ainda me confortavam: A dor que parecia substituir tudo ao meu
redor, seguida por uma sensação de liberdade reconfortadora. E, por fim, eu não
poderia nunca atingir o fundo do poço, pois já me encontrava no mesmo.