MISS
Miss Bennett não deixava que a chamassem de senhora, nem mesmo senhorita. Era miss, como as mulheres finas na Inglaterra (se morava na Europa era elegante, não havia discussão). Bastava chamarem-na de senhora que se dava por ofendida e fechava a cara. Era sua primeira regra.
Sua outra regra era que sua primeira prioridade era, e sempre seria, sua lojinha. O pontinho rosa era a única fonte de cor em meio aos prédios de tijolinho, a vitrine sempre mostrando manequins escuros de feições delicadas pintadas por ela mesma, cada um deles vestidos de rosa e um chapéu extravagante. Era sua parte preferida, os chapéus. Cada um que fazia era único, feitos a partir de penas coloridas, pedras, fitas, flores, retalhos, todo tipo de material que pudesse ser utilizado.
Miss Bennett era a única que usava os chapéus, claro. Ninguém mais ousava usar algo tão aberrante em público, nem mesmo ela, no início. No início, ela era como todas as outras: os cabelos alisados e compridos, as roupas padronizadas, camisetas justas destacando a cintura e os seios, calças jeans exibindo suas curvas. Mas depois da noite na Feira da Cidade, decidiu que não era o tipo de garota que queria chamar atenção de garotos em bares. Decidiu que ia ser o tipo de mulher que sempre quis ser. Decidiu que seu objetivo, a partir daquele momento, ia ser se impressionar.
Assim, deixou os cachos crescerem e começou a fazer suas próprias roupas. Frequentemente perguntavam do que estava fantasiada, mas era exatamente o contrário. Fantasias tentam esconder, mostrar algo que não é. Fantasia era o que ela usava antes da Feira. Essa era ela, verdadeiramente ela.
Chamavam Miss Bennet de excêntrica, mas ela não acreditava nisso. Acreditava que era como todas as outras mulheres. A diferença é que ela já havia tirado sua fantasia.
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